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Amadurecimento da Escalada Brasileira
Por Antonio Paulo Faria
"Amadurecimento" talvez seja a melhor palavra para definir o estágio em que se encontra a escalada esportiva e de grandes paredes no Brasil, e alpina, praticada por brasileiros fora do país. Isso pode ser provado pelo a quantidade de escaladores com idade acima dos quarenta anos, que continuam escalando em padrão elevado. Isso gera qualidade, experiência, conhecimento, ou seja, podemos entender isso como amadurecimento, não apenas das pessoas, mas da escalada também.
No Brasil da década de 1970, praticamente não havia escaladores na casa dos 40 anos de idade com rendimento acima da média. Mesmo porque a escalada por aqui ainda engatinhava, com poucas centenas de praticantes e número igual de vias de escalada. Em todo o país o total de vias não chegava a 300. Na verdade, a evolução entre os anos 40 e 60 foi quase inexistente, melhorou um pouco nos anos 70. A verdade é que escalada naqueles tempos era mais uma atividade social promovida nos clubes, que uma atividade esportiva. Entretanto, alguns jovens escaladores que começaram suas atividades no final da década de 1970 e início dos anos 80, continuam muito ativos, trazendo qualidade, conhecimento e dando grandes contribuições. Eles convivem com os jovens, produzindo uma química perfeita, mesclando paixão, energia nova e vibrante, muita vontade e experiência. O resultado estamos vivenciando hoje, escaladas de qualidade e escaladores de alto nível. Ou seja, o abismo que nos separava da Europa e da América do Norte nos anos 70 e 80, foi diminuindo a partir da década de 1990. Hoje essa diferença qualitativa é pequena, embora continue grande em termos do número total de escaladores e mercado.
Porém, em termos de publicações houve retrocesso. O auge foi entre os anos 2004 e 2006. Pode ter sido coincidência, mas nesse período chegamos a contar com três revistas e dois informativos que nos davam notícias sobre o que acontecia no meio, além de vários livros publicados. Hoje, com muita tristeza, sobrou apenas um informativo, o Mountain Voices. Existem alguns sítios na Internet, mas que são voláteis, não sabemos quando sairão do ar. Felizmente, a publicação de guias de escalada continua a crescer. Eles têm importância fundamental porque narram a evolução histórica do local, além de nortear os princípios éticos criados pelos escaladores mais antigos.
Obviamente a evolução da escalada é feita pelos jovens talentos, mas sobre uma base formada pelos escaladores seniores. Sem os "antigos" não haveria evolução. E isso pode ser considerado como amadurecimento. O resto desta análise será baseada na experiência desses escaladores seniores.
Há vinte anos era quase impossível imaginar um brasileiro com 40 anos escalando décimo grau, primeiro porque não existia vias desse nível no Brasil (com exceção da Southern Confort, no Rio de Janeiro), depois porque não tinha gente mesmo. Mas hoje é diferente. Vejamos o exemplo do André Martins Godoffe, de 47 anos, encadenando vias de Xb. Ele que começou a escalar com 30 anos. Existem outros brasileiros que escalam décimo grau e que completaram 40 anos de idade, ou que escalam por mais de vinte anos. Por exemplo: Luis Cláudio Pita, Luis Cláudio Ralf, Fabio Muniz, Eduardo Barão e Fernando Motta. Mas se abaixarmos para o patamar do nono grau, vários outros podem ser inseridos nesta lista, a exemplo de escaladores completos, como: Eliseu Frechou, Jose Luis Kavamura, Sergio Tartari, Alexandre Portela e Bernardo Collares. Este último faleceu aos 46 anos, em sua melhor forma. Como o universo da escalada esportiva é grande, e não lembro ou conheço todos, esta lista ainda pode crescer consideravelmente com os "novos quarentões" que escalam graus elevados, mas que estão em atividade há pouco tempo, a exemplo do Henrique "Gironha", de Lençóis (BA).
Enquanto que a escalada esportiva é dominada pelos muito jovens, de 15 a 25 anos de idade, nas grandes paredes ocorre o contrário, predomina escaladores com mais de 30 anos. Nesse segmento existe grande entrosamento entre pessoas com faixas etárias e nível de experiência distintas. O exemplo mais recente foi a abertura da Nova Era, na Pedra do Sino, Teresópolis, por Hillo Santana (43) e Lucas Marques (30), escalada que possui 15 enfiadas de corda em livre, a mais difícil sendo IXc.
Memorável também foi a escalada do Salto Angel (Venezuela), possivelmente a mais difícil e complexa realizada por brasileiros. A equipe sênior era formada pelo o Sergio Tartari (49), Jose Luiz Hartmann (44) e Edemilson Padilha (39), além de Waldemar Niclevicz (45), que patrocinou a expedição. Se levarmos em conta que o Tartari ainda participou da conquista de uma nova via no Fitz Roy, em dezembro de 2010, e o Padilha na conquista da Place of Happiness, na Pedra Riscada (MG), em 2009, podemos concluir que a abertura dessas vias complexas e difíceis depende de muita experiência, como ocorreu também com o Eliseu Frechou (43) e o Marcio Bruno (37) em 2010, quando abriram uma nova via no Monte Roraima. Outros nomes precisam ser lembrados por suas grandes contribuições em grandes paredes, entre eles: Emerson Azeredo (42), Eduardo Vianna (40) e Gustavo Piancastelli (40).
Embora o universo feminino seja menor, com quase 20% do total de praticantes, existem pouquíssimas mulheres na casa dos quarenta, ou "quase lá", que escalam até nono grau. A grande maioria pratica apenas escalada esportiva. O número reduzido de mulheres com experiência em grandes paredes reflete numa produção quase ausente, salvo a Karina Filgueiras, que abriu sozinha a Transbau (5°Sup VIIa E3 280 m), em 2011, na Pedra do Baú (SP). A Roberta Nunes, que apesar de ter falecido aos 34 anos, acumulava grande experiência e tornou-se a melhor e a mais completa escaladora brasileira. Não citarei outros nomes devido à sensibilidade feminina, no que se refere à idade, o que é um tabu.
Em 2010 tive uma experiência interessante, a Mônica Pranzl e eu levamos John e Stella, um casal inglês, ambos com 64 anos, para subir uma via de sexto grau, com quatro esticões de corda. Escaladores ativos durante 50 anos, eles fizeram questão de fazer a própria cordada independente. Ficamos fascinados em ver John guiando rápido, sempre sorrindo e se divertindo muito, mesmo com o tempo ruim. O mesmo para Stella.
Alguns da minha geração e provavelmente muitos das gerações posteriores também chegarão no mesmo estágio que esses ingleses. Existem alguns poucos escaladores brasileiros com mais de sessenta anos escalando relativamente bem. Em junho de 2008 passei por outro momento fantástico, no Pico Maior de Friburgo. Fui escalar a "Decadence" com o Fabio Muniz e no cume, encontramos alguns senhores: Carrozzino (64), Jean Pierre (59) e Ivan Calou (54). O Carrozzino ficou espantado porque eu (47) e o Fábio (42) levamos pouco mais de três horas para chegar ao cume. Mas fomos nós que ficamos surpresos de encontrar aquele senhor de 64 anos. Entretanto, mais surpreso ainda fiquei depois, ao saber que o Jair Lourenço, aos 70 anos, havia também subido a via Leste no dia anterior, em apenas seis horas. Acredito que o Jair bateu o recorde brasileiro com mais tempo em atividade, escalando bem durante 50 anos. Pena que faleceu em 2008. Enfim, foi uma coincidência enorme e emocionante juntar todos esses grandes escaladores no Pico Maior de Friburgo, naquele final de semana. Aliás, fica aqui uma sugestão, encontros anuais de veteranos nos Três Picos. Isto vem sendo feito numa reunião social no Centro Excursionista Brasileiro.
Em se tratando de montanhas alpinas em altitude elevada, também houve amadurecimento por parte dos brasileiros, que passaram a escalar com mais freqüência e ganharam muita experiência. Por exemplo, oito brasileiros tiveram sucesso no Everest, incluindo uma mulher. Mas muitos outros tentaram, alguns com idades na faixa dos 50 anos. Entretanto, o que tem sido feito pelos brasileiros, até o momento, é subir vias normais de montanhas altas no Himalaia, nos Andes e na América do Norte, mas muitas vezes em expedições comerciais guiadas por estrangeiros. Ou seja, neste campo ainda há muito que evoluir, mas já existem brasileiros com grande potencial.
Voltando ao Brasil, o que existe de escaladores seniores com boa performance ainda é muito pouco, a pirâmide etária precisa mudar de forma, tem que se transformar em torre, com mais seniores escalando. Infelizmente lembro de poucos de gerações anteriores a minha que continuam dando grandes contribuições, conquistando vias novas e de qualidade, a exemplo do Bito Meyer (54), André Ilha (53) e Tonico Magalhães (52). Mas acredito que é questão de tempo, as gerações de meia idade estão provando isso e prometem chegar aos 60 e 70 escalando bem. Aliás, do jeito que o estilo de vida e a longevidade estão evoluindo, podemos esperar pessoas escalando bem aos 80, como acontece na América do Norte e na Europa.
Concluindo, fica registrado o seguinte, o importante em qualquer atividade física é não parar, no nosso caso, basta apenas continuar escalando regularmente e sem excessos. Isso é uma das variáveis já conhecidas da equação para atingir uma vinda longa e sadia. O Jair Lourenço foi um exemplo importante, principalmente para muitos "velhos de verdade" com seus 30, 40 e 50 anos. Impressionante é ver péssimos escaladores usando a idade como desculpas, e já vi garoto de 28 anos falando tal asneira: "… Não estou escalando bem, estou ficando velho."
Boas escaladas e lembrem-se, não seja velho precoce, a velhice está em sua cabeça.
09/11/2011
Leis de mais, aventura de menos.
Leis de mais, aventura de menos por André Ilha
Introdução
No texto abaixo, originalmente publicado no site Carta Maior, o montanhista e escritor André Ilha comenta sobre as leis que sugeriram nos últimos meses para regulamentação do turismo e esporte de aventura
Quando comecei a escalar montanhas, em meados dos anos 70, passei a integrar uma reduzida confraria de pessoas consideradas exóticas pela maioria da população, que saíam muito cedo de casa nos finais de semana, mochila às costas, para percorrer trilhas e vias de escalada escassamente visitadas. O montanhismo era então domínio exclusivo de amadores, o que lhe valia, inclusive, o apelido de "esporte diferente" por inexistir competição direta entre os seus praticantes. Sua memória e tradições sempre foram mantidas por um bem organizado sistema de clubes, o primeiro deles fundado em 1919 e em funcionamento até os dias atuais.
Uma década depois alguns enxergaram a possibilidade de ganhar a vida oferecendo serviços de guias e instrutores de escalada, na esteira do emergente "turismo ecológico", um fato cujo sucesso teria uma profunda influência tanto no número como no próprio perfil dos freqüentadores de nossas até então tranqüilas montanhas. Pois se antes os clubes divulgavam suas atividades com parcimônia, buscando atrair novos adeptos em números compatíveis com a possibilidade de lhes proporcionar uma adequada formação técnica e ética, além de rudimentos de educação ambiental, os novos profissionais, na ânsia de ampliar o mercado de forma a lhes assegurar um fluxo contínuo de clientes, passaram a divulgar o esporte de forma bem mais intensa, o que levou às montanhas levas crescentes de pessoas ávidas por experimentar as emoções únicas que aquele ambiente proporciona.
Houve então um boom do montanhismo, paralelo à expansão de outros esportes diretamente ligados à natureza e que também oferecem adrenalina garantida aos seus praticantes, como o vôo livre, o parapentismo, a canoagem e outros, o que abriu espaço para o aparecimento de lojas e publicações especializadas, algo até então inexistente. Curiosamente, meras técnicas de escalada, como o rapel e a tirolesa, foram alçadas à condição de "esportes" na disputa por um mercado cada vez mais atraente.
Toda esta efervescência levou, de forma não surpreendente, a um sensível aumento do número de acidentes, por diversas razões. Primeiro, por mera decorrência estatística, já que mais pessoas praticando uma atividade de risco implicam em uma maior probabilidade da ocorrência de acidentes. Segundo, porque a ampla divulgação destes esportes pelos meios de comunicação levou pessoas despreparadas a praticá-los por conta própria, sem prévio treinamento, receita segura para o surgimento de problemas. Por fim, o desejo de abocanhar uma fatia deste segmento em franca expansão propiciou uma multiplicação de empresas e operadores autônomos, alguns dos quais sem tradição e experiência na área e que, eventualmente, colocam seus clientes em risco.
A grande repercussão de acidentes deste tipo na mídia - que, salvo exceções, sempre carrega nas tintas do sensacionalismo - levou muitos políticos, em todos os níveis administrativos e em diversos pontos do país, a se preocupar com a questão e a pensar regras que minimizassem a possibilidade de sua ocorrência. Entretanto, tal preocupação, legítima e compreensível, tem, por vezes, incorrido em equívocos, alguns dos quais tão sérios que chegam a colocar em xeque a própria existência das atividades que pretendem ver salvaguardadas. Como muitos destes equívocos foram gerados por desconhecimento dos princípios básicos que regem tais atividades e das motivações de seus praticantes, cabe aqui entendê-los para que futuras normas não os repitam e mesmo para que algumas já aprovadas possam sofrer aperfeiçoamentos que as convertam em um benefício, e não uma ameaça, a esta instigante tendência de se unir a prática esportiva à natureza.
Diferenças
O ponto central a ser esclarecido é a diferença entre "esportes de aventura" e "turismo de aventura". Esportes de aventura, na adequada definição recentemente aprovada pelo Ministério dos Esportes, compreendem "o conjunto de práticas esportivas formais e não formais, vivenciadas em interação com a natureza, a partir de sensações e de emoções, sob condições de incerteza em relação ao meio e de risco calculado". A definição prossegue, mas aqui já temos evidenciados os dois elementos básicos motivadores do fascínio que tais esportes exercem sobre seus praticantes: a incerteza e o risco calculado. Com efeito, o que um escalador, um parapentista ou um surfista procuram é enfrentar os desafios naturais tais como eles se apresentam, colocando corpo e mente para trabalhar em harmonia de forma a superar os seus limites pessoais e, se bem-sucedidos, desfrutar a satisfação única proporcionada por sua performance.
Em contrapartida, ao lidar com a natureza em seus próprios termos, estes esportistas, assim como aqueles de tantas outras modalidades congêneres, estão dispostos a aceitar eventuais fracassos e a correr o risco de acidentes graves, até mesmo fatais, pois é precisamente na incerteza e no risco (minimizados por técnicas e equipamentos cada vez mais sofisticados) que reside a aventura - esta faceta indômita da psiquê humana que as facilidades da vida moderna procuram eliminar, mas que permanece como uma necessidade primordial para tantos de nós.
Ocorre que é possível a prática destes mesmos esportes em condições mais controladas, com risco mínimo e alto grau de previsibilidade de resultados: este é o terreno do turismo de aventura, atividade comercial na qual guias e instrutores supostamente qualificados levarão seus clientes para experimentar as mesmas sensações e emoções dos esportes de aventura, só que em uma versão mais diluída, em roteiros pré-estabelecidos, de dificuldade moderada e com desfecho positivo quase assegurado. Por se tratar, em última análise, de uma relação de consumo, é correto que o Poder Público procure estabelecer parâmetros mínimos de qualidade e segurança na prestação de tais serviços, embora o Código de Defesa do Consumidor já ofereça uma base sólida nesse sentido.
Algumas leis recém-aprovadas e projetos ainda em tramitação, no entanto, ao darem aos esportes tratamento idêntico ao conferido ao turismo de aventura, acabaram criando, para os primeiros, uma camisa-de-força que descaracteriza a sua própria essência, por pretenderem submeter uma atividade lúdica e amadora a normas, registros e regulamentos tacanhos, penalizando aqueles que apenas desejam desfrutar, em seus momentos de lazer, e na companhia de amigos, a sensação única de liberdade que somente uma trilha, um paredão rochoso, uma corredeira ou um vôo de parapente podem proporcionar - inclusive assumindo os riscos inerentes a essa escolha. Daí defendermos que a premissa inicial para atuais e futuras regulamentações da prática esportiva em ambientes naturais seja que elas devem estar voltadas, exclusivamente, para a sua exploração comercial, em outras palavras, para o turismo de aventura, deixando que cada esporte amador defina, através de suas entidades representativas - clubes, federações e confederações -, sua própria forma de funcionamento, de acordo com suas peculiaridades, história e tradições.
Ainda que bem intencionados, alguns destes dispositivos legais padecem também de uma redação deficiente, certamente fruto de assessoria não-especializada, que mais confundem do que esclarecem e criam demandas impossíveis de serem atendidas.
Exemplos
A ser observado estritamente o texto de lei recentemente aprovada em Minas Gerais, por exemplo, quem for jogar uma pelada no Parque das Mangabeiras estará sujeito à aprovação prévia do Corpo de Bombeiros e de um "órgão competente", a assinar um termo de responsabilidade e, ainda, deverá estar acompanhado de "monitores habilitados", uma vez que, de acordo com este diploma legal, esportes de aventura são todas as "modalidades esportivas de recreação que ofereçam riscos controlados à integridade física de seus praticantes e exijam o uso de técnicas e equipamentos especiais", definição que se aplica perfeitamente ao futebol (muito mais pessoas se lesionam jogando bola do que escalando montanhas, e bola e chuteiras nada mais são do que equipamentos especiais para este esporte).
Pela versão original de projeto que tramita na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, seria exigido dos escaladores o uso de luvas, algo como obrigar mergulhadores a usar pés-de-pato de chumbo...
Por fim, mesmo no tocante à prática comercial, alguns destes atos trazem embutidas uma burocratização excessiva e a ostensiva cartorialização da atividade. O exemplo mais desanimador nesse sentido nos foi dado pela Lei 2353/06 da cidade de Niterói, que determina que só se usem equipamentos certificados por entidade ligada à Empresa de Lazer e Turismo do Município e que só possam atuar no ramo profissionais oriundos de cursos previamente aprovados por ela, além de estabelecer uma inacreditável reserva de mercado para "profissionais já em atividade no Município"!
Alguém ganhará com isso, mas este alguém não será, decerto, os esportes de aventura e nem mesmo o turismo de aventura, pois o programa do curso estipulado para os seus "profissionais" está muito aquém do currículo exigido há décadas pelos clubes amadores para os seus próprios guias.
É natural que atividades novas gerem novas demandas e desafios para o legislador, e os dispositivos acima elencados devem ser entendidos como os inevitáveis tropeços iniciais em uma longa caminhada que apenas se inicia e que deveria estar voltada apenas para as práticas comerciais. Pois, no tocante à prática amadora, fazemos nossas as sensatas palavras do deputado Otávio Germano, relator do Projeto de Lei Federal nº 5609/05, no voto que levou ao seu arquivamento definitivo: "Não cabe ao Estado interferir nessas relações. Se alguém se permite correr determinados riscos inerentes a uma atividade a que voluntariamente se submete, que o faça livremente, no uso da liberdade que lhe é constitucionalmente assegurada. E mais, diante de um Poder Público que já não consegue atender, razoavelmente, a outras imposições mais graves e tipicamente públicas, não se justifica sobrecarregá-lo ainda mais com responsabilidades outras e menores no campo regulatório e fiscalizatório."
André Ilha é coordenador do Grupo de Ação Ecológica (GAE) e ex-presidente do Instituto Estadual de Florestas do Rio de Janeiro (IEF-RJ)
28/10/2010
Fator psicológico - Mente que mente.
O medo é o fator psicológico que mais influencia nosso desempenho enquanto escalamos. Ter uma boa relação com ele pode ser a principal diferença entre uma escalada desfrutável ou tensa ou ainda o fracasso ou o sucesso. Apesar de existirem outros medos que nos influenciam quero falar sobre o que mais apavora, o medo de cair. O medo de uma queda é um sentimento comum a quem escala, e principalmente suas conseqüências é que mais apavoram. Existem dois medos: o medo “irracional”, aquele que não tem razão para existir e o “racional”, que existe e ajuda a nos manter em segurança.  Para controlar o medo irracional faça uma “análise racional” sobre os aspectos que possam influenciar em sua segurança, como: equipamentos, assegurador, exposição, experiência, preparo físico e condições da via no dia. Se você não encontrou nenhum perigo racional como: proteções duvidosas, quedas perigosas, equipamentos em más condições, assegurador inexperiente ou distraído, não existe razão para temer! Para saber se tem este medo irracional veja se escalando em vias bem protegidas você nunca vai até seu limite, geralmente desiste sem tentar e segura na costura para evitar a queda. Então em condições similares sempre que sentir medo lembre-se desta “analise racional” e escale concentrado, se tiver que cair caia escalando, tentando, não desista! Tenha isso em mente antes de escalar e comece a ter uma atitude diferente, não seja enganado pela sua mente. No medo racional enfrentaremos os perigos reais da escalada, como: esticões, proteções complicadas, orientação difícil, blocos soltos... Durante a analise racional você identificará à maioria dos perigos e quanto mais comprometida e longa a via mais informações devemos coletar. Consulte guias, textos, fotos e se possível converse com outros escaladores que já tenha repetido a rota. Veja se já possui experiência suficiente para entrar na via e cuide com as opiniões de quem já repetiu, alguns descreverão como um terror e outros como um passeio! Se você decidiu escalar tente se manter motivado e focado, não transforme a escalada em mito, como você já deve ter percebido as pessoas podem ter pontos de vista negativos ou positivos da mesma via. Durante a escalada não fique focando na queda, olhando para a ultima proteção ou pensando “porque diabos entrei aqui?”, mantenha-se concentrado na escalada, controle sua ansiedade prestando atenção em sua respiração, tente encontrar uma posição de conforto no desconforto, relaxe no esforço e nem pense em cair, agora não é hora de desistir! Sua mente estará querendo te levar sempre para uma zona de conforto, longe do perigo e do esforço. Uma boa técnica para observar isto e para controlar melhor os medos é se observar como uma terceira pessoa. Você deve controlar sua mente e não ao contrário, lembre-se “Sua mente”! Existem alguns livros sobre treinamento em escalada que dedicam um capítulo ao treinamento mental e psicológico, o mais interessante e que dedica todo o livro sobre o assunto é o “Guerreiros de la Roca” de Arno Ingner e publicado pela editora Desnivel.
Texto publicado no Jornal da Monatnha n. 2.
Autor: Daniel Fernandes
12/10/2010
Manifesto da Escalada Natural - por André Ilha.
Manifesto da Escalada Natural
Quando em 9 de abril de 1912 cinco jovens de Teresópolis pisaram pela primeira vez o cume do Dedo de Deus, começava em nosso país a prática de um novo esporte já bastante popular em outras partes do mundo, o Montanhismo. Ganhando de imediato novos adeptos, o Montanhismo desenvolveu- se tendo como óbvio objetivo inicial a conquista de inúmeros picos ainda virgens no Rio de Janeiro e em seus arredores e, à medida em que estes escasseavam, a de novas vias de acesso a montanhas já escaladas anteriormente. O equipamento e as técnicas empregados por esses pioneiros eram evidentemente bastante primitivos, parte devido à própria época em que essas ascensões se deram, parte pela falta quase que absoluta de contato com outras regiões nas quais a escalada em rocha se encontrava mais desenvolvida.
O uso de troncos e escadas como auxílio direto na progressão do escalador era a regra, e a proteção inteiramente baseada em grampos, artefatos de segurança que, uma vez aplicados, marcam irreversivelmente a rocha. Cabos de aço eram considerados uma técnica refinada, e o expoente máximo no uso deste artifício foi o infatigável escalador Sílvio Joaquim Mendes, que ao longo da década de 40 produziu diversas escaladas, algumas notáveis, com este recurso. Não havia qualquer preocupação com estilo pois então, muito compreensivelmente, o importante era completar a escalada e atingir de qualquer maneira o cume visado. Os fins justificavam os meios. Pouco importava como a via era feita, já que escaladas eram encaradas como simples itinerários na rocha a serem vencidos com o auxílio de todos os recursos disponíveis.
Novas técnicas foram então criadas e introduzidas em nosso meio, e o equipamento à disposição do escalador foi de tal forma aperfeiçoado que muito cedo chegou-se ao ponto em que, literalmente, qualquer via poderia ser conquistada, mesmo por cordadas sem o menor preparo para tal, através de artificiais fixos. A habilidade cedia lugar à diligência, a criatividade à repetição, a coragem à tecnologia, e a vitória final sobre a escalada tornava-se, assim, um fato inevitável.
Além disso, muitas dessas conquistas eram coletivas, ou seja, aquelas nas quais o sentimento maior de descoberta e criação de uma nova via é substituído por um trabalho de grupo que, embora gratificante sob certos aspectos, reduz o escalador de condição de um verdadeiro artista para a de simples operário. Resulta daí que a montanha terá que ceder, necessariamente, diante de um assalto que conte com tantos esforços alocados de forma sistemática. Isso rouba da escalada em rocha o sabor de aventura e a incerteza do resultado, sensações próprias de ascensões executadas com meios limitados e que, certamente, são dois de seus maiores atrativos. A experiência única que é a abertura de um novo traçado por uma cordada pioneira cede lugar a um avançar repetitivo, quase monótono, com o uso maciço de recursos materiais e humanos visando apenas completar a via, e não extrair dela experiências enriquecedoras.
Para salvar o esporte, enquanto esporte, de uma estagnação total, impunha-se que a comunidade local de escaladores resolvesse, voluntariamente, limitar os meios empregados em conquistas e ascensões subseqüentes. Tal atitude era inclusive urgente, pois o Rio de Janeiro e seus arredores já haviam sido severamente castigados com milhares de grampos absolutamente desnecessários. Estes desfiguram por completo o caráter natural das paredes rochosas e constituem-se, em termos ecológicos, em uma forma de poluição estética tão indesejável quanto o lixo que por vezes vemos espalhado ao longo de trilhas, acampamentos e mesmo amontoado na base de certas escaladas.
De fato, ao longo do tempo foram surgindo escaladores para os quais subir simplesmente uma parede passou a representar muito pouco, e que viam escaladas não como um mero itinerário na rocha, mas como uma íntima união deste com o estilo empregado durante a sua conquista e mesmo em ascensões posteriores. Para eles, grampos eram apenas o último (e não o único) recurso a ser usado, e escaladas deveriam ser tentadas o mais em livre possível, ou seja, sem se utilizar dos artefatos de segurança para apoio e progressão, devolvendo-lhes o seu caráter original de proteção no caso de uma eventual queda. Se uma escalada lhes parecesse acima de suas capacidades, treinavam para fazê-la corretamente ou então desistiam da empreitada, respeitando os limites impostos pela montanha.
Um dos mais remotos e brilhantes exemplos dessa nova mentalidade foi a conquista da Face Leste do Dedo de Deus, em 1944 - e portanto em plena era do cabo de aço –, por três associados do Centro Excursionista Brasileiro, sem o uso de um grampo sequer. O CEB foi o pioneiro e desde então, até há poucos anos atrás, essa linda escalada pôde ser desfrutada em seu estado original por centenas, talvez milhares, de escaladores. Exemplos como esse, de escaladas naturais, se multiplicaram ao longo dos anos, mas como a toda ação corresponde uma reação, logo se levantaram algumas vozes e críticas contra esse processo, que começava em nosso país já com considerável atraso em relação aos demais locais no mundo onde o esporte era praticado com seriedade. Essas críticas partiam de indivíduos ou grupos inconformados com o progresso e a evolução da escalada em rocha em nosso país, por razões para mim obscuras, mas eram a princípio discretas, já que não foi senão muito lentamente que o conceito de "escalada limpa" foi se estabelecendo em nosso meio e, portanto, não se constituía ainda em ameaça maior ao arcaico status quo vigente.
Ocorre que o número de adeptos do purismo em nosso esporte cresceu consideravelmente em número e habilidade, graças à natural evolução que acompanha o desenvolvimento de qualquer atividade, e sua capacidade técnica foi em muito ampliada devido à determinação de se explorar novos limites de dificuldade com uma auto-imposta redução de meios. Dentro desse espírito, notáveis conquistas foram realizadas; afinal, a escalada em livre pode ser comparada a uma dança de rara elegância executada em um cenário vertical, e certamente é uma das mais belas e gratificantes formas de expressão do corpo humano em movimento. Nela, cada parte do corpo, assim como os sentidos e as emoções, são convocados a cada instante a terem um desempenho preciso para que se possa vencer o obstáculo proposto. Além disso, se a competição em nível interpessoal e intergrupal é um elemento inteiramente estranho e condenável em nosso esporte, pode haver uma competição velada do escalador com ele mesmo, no sentido de estabelecer os seus próprios limites e, se possível, alargá-los.
Para isso, por vezes, é necessário um grande treino e dedicação, como de resto em qualquer outra atividade humana. Mas que mal há nisso? A esse respeito, seria interessante ouvirmos o parágrafo final do editorial da revista inglesa Mountain, em sua edição de janeiro/fevereiro deste ano (1983): "Não devemos nos preocupar quando os escaladores se tornam mais atléticos e usam sua própria força para conquistar a montanha, mas sim quando abusam no uso de artifícios para reduzir a montanha ao seu próprio nível. A reabertura aos olhos do mundo ao longo dos dez últimos anos da noção de escalada em livre pura pôde assegurar a continuidade da saúde do esporte".
Aliás, o nivelamento por baixo do esporte parece ser o objetivo dos mais exaltados opositores de seu progresso nos dias atuais, gente que em plena década de 80 ainda conquista com cabos de aço, escadas de madeira, artificiais fixos inúteis, etc., e que altera profunda e irreversivelmente as características originais de ótimas vias criadas no passado e assim repetidas por anos – ou décadas –, freqüentemente sem comunicar o fato aos onquistadores. Estas pessoas acusam a nova geração e seus feitos como obra de acrobatas e elitistas. Acrobatas porque muitos escaladores de hoje sentem prazer em enfrentar obstáculos muito acima dos acanhados limites que a estreita visão daqueles permite enxergar. E elitistas porque, em sua determinação de desenvolvimento, encaram e tentam dominar os seus próprios medos, e porque têm a suprema coragem de admitir a derrota frente às dificuldades naturais, sem recorrer a marretadas como uma solução rápida e fácil para os problemas que se apresentem.
Diz-se também que não está havendo respeito pelas tradições do Montanhismo, e que as atividades dos escaladores de hoje são conflitantes com o espírito dos clubes, dos quais se estaria tentando, inclusive, subverter a ordem normal. Nada mais falso.
Os clubes sempre foram o principal centro de prática e difusão do esporte em nosso país, e seu papel é insubstituível nesse aspecto. Aqueles que se modernizam nada têm a temer; pelo contrário, só têm a lucrar com a efervescência que a introdução de novas idéias, técnicas e equipamentos trazem. Além disso, tradições só fazem sentido quando não interferem com o progresso, pois se não ainda estaríamos escalando com cordas de sisal na cintura e botas cardadas, e ainda seriam exigidos ao novato dois anos de experiência comprovada para participar de uma simples ascensão à Agulha do Diabo. Os clubes devem ser fortalecidos, desde que não se desviem de sua finalidade original: ponto de encontro de montanhistas, centro de divulgação e estímulo à prática do esporte e arquivo da memória excursionista. Quando um clube passa a dar maior importância à sua vida social do que ao Montanhismo em si incorre em grave distorção, que fere o próprio ideal que motivou a sua criação.
Finalmente, a última crítica que pesa sobre os defensores das escaladas naturais a merecer consideração é a que diz respeito às vias por eles criadas, que seriam perigosas, inseguras, e que se estaria tentando torná-las propositalmente difíceis e inacessíveis ao escalador comum. Nota-se aí, novamente, o conceito de elitismo sendo usado como arma improvisada para suprir a falta de argumentos mais consistentes sobre o assunto, e para disfarçar sentimentos inconfessáveis.
Um exemplo concreto de que qualidade não é sinônimo de dificuldade novamente pôde nos ser dado por associados do CEB, ao conquistarem recentemente duas pequenas e fáceis escaladas de 2º grau no Rio de Janeiro, os Paredões São Pedro e Yosemite. Ambas são vias que, apesar de clássicas em sua concepão, foram conquistadas dentro de um estilo impecável, ou seja, inteiramente em livre e com grampos em número suficiente para torná-las seguras, e nada mais.
É evidente que sempre poderá haver alguma discordância quanto ao tamanho de alguns lances, mas tais discussões devem ser levadas a termo civilizadamente sob o signo do bom senso, e há de se respeitar, em última instância, a concepção original dos conquistadores. De qualquer forma, a questão poderia ser resumida nas palavras de um alpinista austríaco (Reinhold Messner), comentando a respeito dos que insistem em reduzir a dificuldade da montanha por meio de artifícios: "Esses escaladores carregam a sua coragem na mochila". Quanto à proteção móvel – ou natural, já que não danifica a rocha –, tal como nuts, friends, bicos de pedra, afirmo que ela é absolutamente segura quando corretamente empregada, e seu uso é a regra, e não a exceção, em todo o mundo. Há quem diga que nuts não deveriam ser usados, pois nem todos sabem lidar com eles ou mesmo não os possuem. Ora, qualquer técnica só pode ser posta em prática se houver um aprendizado prévio, e o uso de nuts, como qualquer outra em escalada, deve ter o seu ensino difundido para todos. Bater grampos ao lado de boas fendas, visando torná-las acessíveis para todos, seria como se o Comitê Organizador das Corridas de Fórmula I franqueasse suas provas a carros de passeio, para que todos nelas pudessem tomar parte. As únicas diferenças correm por conta da natureza competitiva daquele esporte, estranha ao Montanhismo, e pelo fato de que qualquer um com vontade e disposição reais pode repetir as vias em nuts.
E quanto à alegação de que poucos possuem jogos de nuts, esta é improcedente, pois já vai longe o tempo em que estes eram uma raridade, e atualmente já existem até alguns de fabricação nacional, e todos sabemos como obtê-los. Para concluir, gostaria de lembrar a todos os montanhistas presentes, mas especialmente aos mais novos que, no momento atual, estamos diante de uma encruzilhada que decidirá qual o futuro do nosso esporte. Está em jogo o nosso maior patrimônio, ou seja, o conjunto de paredes rochosas que nos circundam, e que serão legadas àqueles que nos sucederem. Cabe então a cada um, com base nesses fatos que saltam aos olhos de quem quiser vê-los, escolher o seu caminho. Pode ser o caminho fácil que conduz ao passado, o da despreocupação com estilo e com a integridade física e estética da rocha, onde qualquer dificuldade pode ser imediatamente substituída por um grampo; ou pode ser o caminho muito mais árduo e exigente da escalada natural, onde dedicação – por vezes obstinação – e firmeza de propósitos são requisitos indispensáveis. Um caminho onde insucessos são mais freqüentes, mas que por outro lado, e por este mesmo motivo, as recompensas interiores de uma vitória são incomparavelmente maiores, já que derivam de um encontro justo com a montanha. Se esse rumo for o escolhido por todos, então poderemos afirmar com segurança que a escalada em rocha no Brasil irá ocupar, em breve, o lugar de destaque que merece, tanto dentro quanto fora de nossas fronteiras.
André Ilha
Texto lido durante o I Encontro Brasileiro de Montanhismo, ocorrido em setembro de 1983 na cidade de Teresópolis, na sede do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, e depois distribuído amplamente em versão impressa com um texto subsidiário, cujo título é "Pontos de Apoio".
PONTOS DE APOIO Evitar o uso de pontos de apoio artificiais tem sido um constante tema de debates em nosso círculo de escaladores, uma vez que a escalada em livre é um dos objetivos mais evidentes contidos no conceito de escalada natural. Mas o que realmente vem a ser "escalar sem pontos de apoio"? Ou, em outras palavras, como poderíamos definir com precisão o que é escalada livre?
Na moderna concepão do esporte significa não se utilizar, de forma alguma, dos pontos de segurança (grampos, pitons, nuts, cunhas etc.) para auxílio direto na progressão do escalador, reservando-os apenas para proteção caso uma queda venha a ocorrer. Isso implica não pisar nem segurar neles, tanto para impulso quanto para equilíbrio, em ascensões que se digam como sendo em livre. Dentro desse conceito, descansar em um grampo também é uma forma de usá-lo como apoio, pois assim a continuidade de dificuldades, sem a presença de locais naturais de repouso – platôs, lacas, depressões e saliências de porte na rocha –, estará sendo quebrada, e esse é um dos fatores preponderantes na determinação do grau de uma via, a ser assumido por quem se dispuser a fazê-la em livre. Mesmo que após descansar o escalador retome a sua posição original no lance para o reinício da ascensão, ainda assim estará usando um ponto de apoio, pois terá se valido de um artifício para dividir uma seqência de dificuldades em "n" partes, tornando-a obviamente mais fácil enquanto menos extenuante. Em outros países isso é chamado de aid-rest (descanso com apoio), e as passagens assim executadas são classificadas como sendo de A-0, pois encontram-se a meio caminho entre ascensões em livre puras e os artificiais convencionais. A exceção evidente a esta regra corre por conta das paradas no final das enfiadas de corda onde não hajam locais naturais de repouso, ou no hands rests, se usarmos uma vez mais a terminologia empregada no exterior. Mas a prática nos mostra que tais casos são raros, e que a negativa a esta afirmação decorre do fato de que o nosso sistema usual de proteção, centrado em grampos fixos de altíssima resistência, permite a parada em virtualmente qualquer ponto da escalada, sem que se tenha que buscar, necessariamente, um desses locais naturais de repouso para descansar e trazer o participante. Um exemplo concreto: há uma seqüência de lances no Paredão Soleil, entre o seu primeiro platô e um óbvio buraco (locais de parada naturais) que, se feita em livre de forma contínua, terá uma dificuldade. No entanto, se for repetida descansando-se em cada grampo, ou dividida em duas ou mais enfiadas de corda por meio de paradas forçadas, então sua dificuldade será inteiramente diferente daquela. E quando o escalador cai? Ao voltar à sua última costura para se recompor não estará ele usando um ponto de apoio artificial para descanso? Sim, pois a queda significa que ele falhou em sua tentativa de subir em livre aquele trecho. Deriva diretamente deste fato um estilo de ascensão muito popular em todo o mundo conhecido como "iô- iô", onde o escalador, após cada queda, retorna ao seu último no hands rest (literalmente, ponto de descanso sem as mãos) e dali recomeça toda aquela seqência de lances, visando fazê-la de forma contínua. Conhece-se casos de cordadas que consumiram mais de um mês de tentativas em iô-iô até conseguiram, finalmente, fazer em livre uma determinada enfiada de corda de dificuldade extrema. A opção para este fanatismo seria usar os apoios e assumir que não foi possível fazer em livre aquela via. Outra dúvida que constantemente surge é se o escalador está usando um ponto de apoio quando segura em um grampo apenas para costurá-lo. Certamente que sim, pois isso além de ser uma forma de descanso, especialmente após lances de agarrinhas, freqüentemente serve como meio de se recuperar o equilíbrio perdido ou abalado após um lance difícil. Repetir escaladas evitando o uso de pontos de apoio artificiais é um caminho rápido, seguro e eficiente para o aprimoramento técnico individual. Permite também que velhas vias conquistadas total ou parcialmente em artificial subitamente voltem a despertar interesse, para ver se é possível se "eliminar" (evitar) os pontos de apoio até então existentes. Essa prática tem como consequência direta uma elevação substancial no nível geral de habilidade dos escaladores, e faz com que certas vias sofram drásticas mudanças de dificuldade. Por exemplo: o Paredão Baden Powell, de acordo com a concepção tradicional, é classificado como 4o IVsup, mais um pequeno cabo de aço (C). Se feito inteiramente em livre (cabo de aço inclusive) no entanto, seu grau pula para 5o VIsup se os mesmos parâmetros de avaliação forem utilizados, no caso os propostos pela Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro – FMERJ em 1975. Isso em absoluto não significa que todos devam escalar dessa forma, pois a total liberdade de ação, fruto da escolha pessoal, é uma das principais características de nosso esporte, desde que terceiros não sejam prejudicados como no caso de grampos instalados para substituir dificuldades. Mas não é demais pedir que relatos de conquistas e repetições de vias já estabelecidas sejam precisos nesse aspecto, para que se possa avaliar corretamente a dificuldade de cada via e haver uma padronização da nomenclatura específica, reservando o termo "escalada livre" para aquelas que realmente o forem.
André Ilha Texto distribuído juntamente com o "Manifesto da Escalada Natural", de setembro de 1983, em sua versão impressa.
28/01/2010
Um esporte ameaçado por André Ilha
Praticado eventualmente no Brasil desde o século XIX, o montanhismo, termo que engloba caminhadas e escaladas em rocha, ganhou impulso com a histórica conquista do Dedo de Deus, em Teresópolis, em 1912, feito que teve repercussão nacional à época. Pouco depois, em 1919, era fundado o Centro Excursionista Brasileiro, primeira agremiação do gênero em toda a América Latina, e desde então o esporte vem crescendo de forma ininterrupta, reunindo hoje milhares de adeptos que o praticam, como norma geral, dentro de elevados padrões técnicos. Boa parte destes montanhistas encontra-se filiada a dezenas de clubes, quatro federações estaduais e, agora, também à Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - CBME, todos imbuídos do propósito de difundir o esporte dentro de padrões de segurança que nada devem aos mais avançados centros de escalada em todo o mundo. Além disso, os montanhistas, também como norma geral, possuem elevada consciência ecológica e, cientes do impacto que a presença humana pode causar nos ambientes naturais, desenvolveram, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, um conjunto de recomendações para a prática do montanhismo de mínimo impacto. Por amor às montanhas que freqüentam, eles se engajaram diretamente na luta pela criação de muitas unidades de conservação importantes em maciços rochosos como, por exemplo, o recém-criado Monumento Natural Municipal do Pão de Açúcar e a APA Morro da Pedreira, em Minas Gerais, e outras mais foram instituídas por sua inspiração, como é o caso do Parque Estadual dos Três Picos, na Região Serrana do Rio de Janeiro. E, num bem-sucedido esforço de auto-regulamentação de sua atividade, seminários de mínimo impacto em áreas específicas vêm sendo realizados, provando ser possível conciliar o lazer com a preservação do meio ambiente. Entretanto, a despeito do vigor apresentado por este esporte amador que, como poucos, sintetiza a comunhão do homem com a natureza, e da inegável responsabilidade com que ele é praticado hoje no Brasil, tanto em termos de segurança física quanto ambiental, alguns fatos recentes têm ameaçado a sua prática tradicional, mormente no interior de certas unidades de conservação federais. O primeiro deles é a obrigatoriedade da contratação, em alguns parques nacionais, dos chamados "condutores de visitantes", moradores do entorno destas unidades que receberam uma capacitação superficial para levar turistas e certos destinos fáceis e pré-determinados no interior das mesmas. É certamente desejável que tal oportunidade de emprego e renda seja disponibilizada aos jovens locais, mas ao obrigar montanhistas experientes e responsáveis a desembolsar uma quantia nem sempre pequena para ter ao seu lado um desconhecido menos experiente que eles, que os levará a destinos repetidos e tecnicamente inexpressivos, os gestores destas unidades, por não tê-los distinguido de turistas citadinos leigos, aniquilam o montanhismo de alto nível tal como ele é praticado em todo o mundo. A existência de um serviço de condutores de visitantes opcional em todos os parques e unidades afins parece-nos o mais recomendável, uma vez que a grande maioria dos visitantes de fato precisa de alguém que lhes permita tirar o máximo proveito de sua permanência, proporcionando-lhes a necessária segurança física aliada à certeza do desfrute de certos atrativos naturais, ao passo que os montanhistas tradicionais, como qualquer praticante dos chamados esportes de aventura, estão em busca do desafio e da dificuldade e dispostos a aceitar a incerteza de resultados que caracteriza tais atividades. Públicos distintos, portanto, aos quais se deve proporcionar tratamento distinto, até porque o lazer é um dos objetivos precípuos dos parques e unidades afins, conforme a lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC. Já em outras unidades partiu-se para o estabelecimento de um sistema de concessões em princípio bastante positivo quando se trata de serviços auxiliares, como bares, lanchonetes e venda de suvenires. Entretanto, algumas extrapolaram, cedendo à grande pressão de empresários do setor no sentido de que a prática de quaisquer atividades esportivas ou de lazer tenha que se dar, necessariamente, através da contratação de uma empresa que as monopolize naquela unidade, mediante licitação. Em outras palavras, ensaiam terceirizar não apenas os serviços opcionais, mas também o próprio uso público da unidade, privatizando o direito constitucional de desfrute dos atrativos naturais de cada parque pelos cidadãos! Uma vez mais a disponibilização opcional de tais serviços para os turistas inexperientes que aportam nestas unidades aos milhares a cada ano em busca de alguma emoção configura-se como o correto - serviços estes que, por sinal, serão melhores caso a concorrência não seja suprimida e um certo número de operadores possam atuar simultaneamente. Por todo o exposto, urge que as autoridades ligadas às áreas de meio ambiente, esporte e turismo avancem juntas na compreensão de que existem duas espécies completamente distintas de usuários das unidades de conservação. A primeira, bem mais numerosa, é a do turista convencional que, atraído pelas belas imagens destas áreas naturais, deseja conhecê-las de forma rápida e dirigida e que se valerá dos serviços postos à sua disposição por guias locais ou por operadoras de turismo para maximizar os resultados de sua visita. Já a outra, muito menor, é constituída por pessoas que buscam uma experiência mais intensa no convívio com a natureza, envolvendo descoberta, desafio, auto-superação; pessoas dispostas a suportar a frustração de eventuais fracassos, mas que por outro lado desfrutam as recompensas interiores conquistadas por sua habilidade, técnica e perseverança, sem assistência externa. Isto tudo, claro, dentro da estrita observância da legislação ambiental e assumindo plenamente os riscos inerentes a estas atividades, o que implica isentar por completo os gestores de tais unidades, mediante termo próprio, na eventualidade de um acidente. No Ministério dos Esportes esta diferenciação já foi bem compreendida, e na área ambiental a atual administração do Parque Nacional da Serra dos Órgãos vem desenvolvendo um modelo de relacionamento com os montanhistas amadores que pode ser reputado como exemplar. Resta, contudo, que este modelo seja devidamente apreciado e estendido a outras unidades pelo IBAMA e pelo próprio Ministério do Meio Ambiente para que o montanhismo tradicional independente não seja banido dos principais maciços do país, quase todos inclusos em unidades de conservação, em benefício exclusivo dos empresários e de outros segmentos que se aproveitam comercialmente do boom dos esportes de aventura.
André Ilha é ex-presidente do Instituto Estadual de Florestas do Rio de Janeiro (IEF/RJ)
25/09/2009
A importância de proteger as Montanhas
A importância de proteger as montanhas Texto de Reginaldo José de Carvalho
As montanhas são os mirantes naturais da terra, impressionam pela grandiosidade e beleza, mexem com os sentimentos, encantam,ensinam e tranqüilizam com o silêncio e a paz. Provocam admiração, são fonte de inspiração para diversas culturas e crenças desde muito tempo atrás. Cobrem grande parte da superfície terrestre, onde metade da população mundial depende de seus recursos, e também, vivem milhões de pessoas. Por muito tempo, pelo fato de estarem situadas em lugares isolados, mantinham-se protegidas da ação humana. Porém, atualmente, elas já estão sendo afetadas.Algumas dessas áreas selvagens que restam, estão desaparecendo, cedendo espaço à infra-estrutura urbana e industrial, à agricultura e outros fatores relacionados ao “desenvolvimento”.Geralmente as montanhas são vistas como fonte inesgotável de recursos naturais, mas pouca atenção se dá à fragilidade de seus ambientes e na conservação e preservação de seus complexos ecossistemas. Fontes de água
Montanhas são os reservatórios do mundo, essenciais para todo o tipo de vida na terra e para o bem estar da humanidade. Pertencem ao imbricado mosaico de sistemas naturais, pois o que acontece no topo das montanhas, reflete na estruturação da vida nas planícies, baías, oceanos e mares. As nascentes dos grandes rios que fornecem água para a maioria das grandes cidades, encontram-se nas montanhas. Cerca da metade da população mundial depende das chuvas que caem nas grandes cordilheiras, como a do Andes, Cáucaso, Himalaia, Karakoram, Pamir, Ruwenzori, Alpes, Montanhas Rochosas entre outras. Grande parte da água do rio Amazonas, provém da Cordilheira dos Andes. Em muitos países andinos, as montanhas retêm a neve e o gelo, favorecendo a irrigação dos campos de cultivos, abastecendo cidades, gerando energia etc.
No Brasil, as montanhas da Serra do Mar são cobertas pela densa Floresta Atlântica, nessas áreas, estão concentradas as nascentes dos principais mananciais de água que suprem grande porção da demanda do abastecimento público e industrial de diversas cidades litorâneas do sul e sudeste brasileiro, a qual Joinville está incluída.
A conservação dos recursos hídricos é de extrema importância para manter a vida na Terra, se não houvesse outros motivos para se proteger as montanhas, este já seria o suficiente. Abrigo da biodiversidade
Por estarem em locais remotos, às vezes inacessíveis, e possuírem um potencial limitado para agricultura e desenvolvimento de cidades, algumas regiões montanhosas tornam-se menos acessíveis pelo homem. Por causa disto, tornam-se santuários da fauna e da flora, que talvez já tenha desaparecido nas planícies.
Ecólogos calculam que mais de um terço das plantas terrestres e dos vertebrados conhecidos, estão confinados a menos de 2% do planeta. Inúmeras espécies aglomeram-se em regiões de solos ricos e não danificados. Muitas dessas regiões ficam nas montanhas e contém uma biodiversidade que beneficia a todos. Alguns dos alimentos mais importantes do mundo vêm de plantas silvestres que ainda crescem nas montanhas, milho nas terras altas do México, batata e tomate nos Andes e trigo no Cáucaso, para mencionar apenas alguns.
No Brasil, o que sobrou da cobertura original da Floresta Atlântica, está distribuída pelas íngremes encostas da Serra do Mar onde ainda guardam cenários originais do bioma, apresentando uma rica biodiversidade. Contemplação
As montanhas também conservam a beleza natural. Nelas podem ser encontrados vertiginosos paredões rochosos, deslumbrantes cachoeiras, rios, lagos, florestas, geleiras e grande parte dos cenários mais impressionantes do mundo. Em todo o planeta um terço de todas as áreas protegidas estão nas regiões montanhosas. E são os lugares mais procurados por excursionistas. Muitas comunidades das montanhas beneficiam-se dessa afluência de turistas, embora o turismo sem controle possa ameaçar o frágil ecossistema. Exemplos de exploração comercial como no Everest, devem ser mais conscientes e melhor controladas. Conhecimento empírico dos povos das montanhas
No decorrer dos séculos, as pessoas que vivem nas montanhas aprenderam a tirar proveito do ambiente hostil. Os povos das montanhas em geral, construíram terraços nas montanhas que ainda são utilizados na agricultura, mesmo depois de dois mil anos. Domesticaram animais nativos como a lhama nos Andes e o iaque no Himalaia, que conseguem se adaptar ao frio e aos rigores das elevadas altitudes.
O conhecimento empírico, acumulado por estes povos, pode ser inestimável na questão de proteger as montanhas das quais todos nós dependemos. Esses povos são os únicos guardiões dos enormes e poucos explorados habitats nas regiões remotas de cada continente, eles possuem um acervo de conhecimento ecológico que se iguala aos das bibliotecas de ciência moderna. Essa riqueza de conhecimento, necessita de tanta proteção quanto outros recursos encontrados nas montanhas. Aquecimento Global
Os ambientes de montanha são os mais afetados pelo aquecimento global, as geleiras estão derretendo e as camadas de neve estão diminuindo, um processo que segundo alguns cientistas, afetará as reservas de água e provocará sérios problemas. Atualmente, dezenas de lagos glaciais no Himalaia ameaçam a romper suas barreiras naturais e causar enchentes catastróficas, fenômeno que já ocorreu várias vezes nas últimas décadas. Montanhas como o Kilimanjaro poderá perder suas geleiras daquia quinze anos, nos Andes o recuo das geleiras também é bastante perceptível, podendo causar problemas sérios no que diz respeito ao abastecimento de água.
Estes são alguns dos motivos para manter conservado qualquer ambiente de montanha existente em nosso planeta, ajude-nos a conservá-las, pois só assim, estaremos perpetuando-as para as futuras gerações.
Reginaldo José de Carvalho é montanhista, geógrafo e diretor ambiental da Associação Joinvilense de Montanhismo.
18/09/2009
Calçado ideal!??
A primeira coisa a fazer quando se pretende adquirir um calçado para uma atividade outdoor é definir onde você pretende usá-lo. Depois, definir qual atividade a ser praticada e então observar as características como apoio, proteção, absorção de impacto e aderência do solado entre outras.
Além das características do calçado, importante também é a “sua” característica. Seu tamanho e peso, estrutura e peculiaridade de seus pés. Na verdade não existe um calçado ideal, o importante é que este “caia bem em seu pé”. Um calçado realmente bom não será barato, mas fará toda a diferença.
E lembre-se: “Calçado mal escolhido pode acabar com sua aventura!!!!!”
Alguns detalhes para observar na compra do seu calçado:
1- Conheça o tipo do seu pé e procure por calçados que sejam feitos para ele;
2- Compre à tarde, noite ou depois de caminhar/correr, quando seus pés aumentam pelo inchaço;
3- Experimente o calçado com meias de trekking;
4- O calcanhar não deve apertar nem deixar seu pé deslizar;
5- Os dedos devem se mexer com as botas no pé, mas este espaço não pode ser muito grande;
6- O pé incha com o calor. Se o tênis for justo, compre um maior
7-Sempre experimente os dois pés ao mesmo tempo, fechando-a completamente como se fosse sair para caminhar naquele instante;
8- Caminhe com o calçado ou corra pela loja, nunca experimente o calçado apenas sentado;
Para corridas de aventura um bom tênis deve apresentar um bom solado (aderente) e recursos para secagem e escoamento da água da meia e do pé são as mais indicadas. Para caminhadas longas ou curtas pode-se optar por tênis ou botas. As botas dão mais sustentação ao tornozelo e aquecem mais o pé. As com películas respiráveis são mais indicadas por serem impermeáveis e transpiráveis.
MEIAS TAMBÉM SÃO IMPORTANTES....
A escolha das meias é tão importante quanto os calçados pois complementa o “equipamento” dos seus pés. As meias não devem mudar o ajuste do calçado, se grandes demais podem causar desconforto, bolhas ou inchaço, se justas, podem afetar a circulação e o movimento dos dedos.
Uma boa opção são as meias confeccionadas com tecidos antibactericida.
*Texto de Fabiana Thisen Buhrer.
10/09/2009
Roupas adequadas para o friooo!!
Com a chegada das estações de outono/inverno as temperaturas caem muito e para quem pensa em sair para viagens a locais de inverno rigoroso como: estações de esqui, cidades serranas e cordilheiras, devem escolher roupas adequadas para estes ambientes.
A maioria das pessoas pensa que a melhor opção para a proteção contra o frio é usar um casacão bem pesado e grosso! Se você usar um casacão pesado sobre uma camiseta de manga curta, não terá muita alternativa, é 8 ou 800! Usa o casaco e sente calor ou fica de camiseta e morre de friooo!!
A maneira ideal é vestir-se em camadas, ou seja, uma camada de isolamento, uma camada de aquecimento e outra camada de proteção externa. Este sistema pode ser usado tanto para vestir o tronco como para as pernas.
A camada de isolamento fica em contato com a pele e tem a função de absorver e transportar a umidade corporal para o meio exterior. O algodão exerce bem esta função, porém, no inverno ou em dias de baixas temperaturas e muita umidade, o ideal é usar fibras sintéticas (poliéster), que não absorvem tanta água como o algodão e secam mais rápido. Permanecer longos períodos com roupa molhada pode levar a hipotermia.
A camada de aquecimento pode ser formada com tecidos sintéticos (fleece, pile, polartec, dracon) ou fibras naturais, tais como a lã. Esta camada tem a função de “regular” e “segurar” o ar aquecido junto ao corpo, mantendo um microclima agradável e confortável. As fibras sintéticas absorvem muito menos água do que as fibras naturais e aquecem tanto quanto, alem de serem mais leves, mais fáceis de lavar e de menor volume.
Usamos como camada de proteção externa, os anoraks, capas de chuva ou parcas. Eles protegem da chuva, vento e do sol. O tecido ideal é o nylon resinado, somado a uma membrana impermeável/transpirante (Gore-tex, Sympatex, TPC, etc.).
Quando o resto do corpo está devidamente vestido, a cabeça descoberta é como um radiador, responsável pela liberação de mais da metade do calor que o corpo perde. A cabeça é a primeira parte do corpo que deve ser descoberta quando você está superaquecido e a primeira parte a cobrir, quando você está com frio.
Bonés do tipo legionário com uma bandana atrás são excelentes para proteger o pescoço e orelhas do sol alem dos óculos escuro quando for o caso. Não se esqueça de levar protetor solar e protetor labial. Principalmente sob a neve, superfície muito clara funciona como um espelho, refletindo os raios solares e causando queimaduras.
Tenha em mente que estar bem vestido, protegido das intempéries, aquecido e confortável deixará a suas aventuras e viagens muito mais agradável e segura.
*Texto de Daniel Acruche Fernandes.
25/08/2009
A escolha da mochila certa exige atenção. A mochila ideal é aquela que mais se adequa às suas atividades e à sua estrutura física. Conhecer bem as regulagens e saber arrumá-las da melhor forma são detalhes que aumentam a harmonia de seu relacionamento com o equipamento e lhe permitem desfrutar melhor as facilidades que ele lhe oferece.
A variedade de modelos, cores, tamanhos e preços podem confundir.
Preste atenção aos seguintes itens:
Tamanho
O tamanho de uma mochila é determinado pela sua capacidade em litros. Isso sempre soa muito abstrato para quem está pouco familiarizado com o assunto e pode não significar absolutamente nada para quem está comprando sua primeira mochila. As pequenas em geral têm capacidade para 25 a 40 litros. A capacidade das médias varia de 45 a 60 e as grandes, também chamadas de cargueiras podem carregar de 60 a 90 litros. Pense primeiro em que atividade você vai estar realizando com a mochila. Existem mochilas especiais para bike, montanhismo ou caminhadas. Se você precisa de uma mochila polivalente, é melhor optar por uma média com bons recursos de regulagem. É preciso manter a carga bem firme mesmo quando a mochila não estiver totalmente cheia. Também é bom ter opções para atar isolantes e outros acessórios à estrutura externa da mochila. Tenha sempre em mente que encher demais uma mochila pode comprometer sua durabilidade.
Custo x Benefício
Materiais mais resistentes e acabamento de melhor qualidade podem custar um pouco mais na hora da compra, mas tendem a durar mais. Atualmente as mochilas estão bastante evoluídas e apresentam uma série de soluções específicas para as atividades às quais se destinam. Por isso é melhor não tentar comparar o preço da "pequininha" com o da "grandona". Se você já está praticando atividades como montanhismo, caminhadas e cicloturismo há algum tempo, tenha em mente que a mochila é um item fundamental. Investir um pouco mais para ter o que o mercado oferece de melhor pode significar anos de tranquilidade.
Ergonomia
Este conceito refere-se à ajustabilidade dos objetos à anatomia humana. No caso da mochila ele é fundamental. Proporcionar transporte de carga em harmonia com a constituição física humana é a principal função da mochila. Na hora de escolher a sua, preste muita atenção em como ela se ajusta às costas e aos quadris. As mulheres devem verificar se a curvatura das alças não está incomodando na altura dos seios. Depois de algumas horas de caminhada, alças inadequadas podem machucá-los. Volume externo Bolsos laterais e traseiros são interessantes para separar a bagagem e manter determinados itens sempre à mão. Entretanto, bolsos externos podem se enroscar facilmente quando se caminha em mata fechada ou atrapalhar a locomoção em lugares muito movimentados como rodoviárias e aeroportos. O ideal é que a mochila seja mais estreita que seus ombros, mais baixa que sua cabeça e tenha perfil achatado sem bolso traseiro. Os modelos com bolsos destacáveis, que podem ser usados como pequenas mochilas de ataque são muito interessantes.
COMO REGULAR SUA MOCHILA
Mochilas moderna têm várias regulagens e é fundamental conhecer suas funções para poder adequá-las a cada situação. Conhecer os detalhes de sua mochila e saber fazer a regulagem correta pode salvar uma viagem. Com exceção da regulagem dorsal, todas as outras devem ser ajustadas toda vez que se veste a mochila, pois dependem da carga, do terreno, da roupa e até do humor do dono. E quanto mais técnica for a atividade mais se exige estabilidade da mochila e mais apertadas devem ser as regulagens.
Regulagem dorsal
Normalmente é a única regulagem fixa da mochila, ou seja, você regula apenas uma vez de acordo com o tamanho do seu tronco. Faça essa regulagem de maneira muito atenta e de preferência com o auxílio de alguém. Se for mal feita, esta regulagem poderá sobrecarregar os ombros.
Fitas de compressão lateral
Este tipo de regulagem se torna especialmente importante para mochilas com meia carga, pois permite compactar a carga mais perto das costas. O ideal é deixar a mochila achatada e rígida. O sistema mais comum é o de duas ou três fitas horizontais em ambas as laterais da mochila. A regulagem é feita com fivelas de nylon do tipo "só puxar". É bom que se tenha pelo menos quinze centímetros de fita sobrando para prender apetrechos (o isolante, por exemplo). Neste caso fivelas tipo macho-fêmea" facilitam ainda mais a operação.
Barrigueira
Este é o acessório mais importante da mochila, média ou grande. Fuja das mochilas com regulagem fixa, ou seja, aquelas que além da fivela principal da barrigueira tem uma outra que fixa a regulagem. No mínimo um dos lados deve ter regulagem livre: ajustável sem que seja preciso desconectar a fivela principal. Certifique-se também se a regulagem mínima da barrigueira vai se ajustar adequadamente quando você estiver magrinho ou caminhando sem camisa. Algumas pessoas chegam a emagrecer até cinco quilos numa caminhada de quinze dias em terreno difícil ou altitude. Não se esqueça de que a função principal da barrigueira é transferir o peso da mochila para os quadris. Barrigueiras fofinhas e com aparência confortável podem se tornar um martírio sob uma mochila carregada, e normalmente perdem muito em durabilidade.Muitas mochilas pequenas e leves têm barrigueiras de fita que não transferem carga para a cintura. Elas funcionam com estabilizadores e são muito úteis para escalar, correr ou caminhar em terrenos acidentados. Fique atento também para a fivela. Existem muitos modelos diferentes e alguns deles podem quebrar se utilizados de forma exigente, principalmente se forem de plástico. As boas fivelas são de nylon e geralmente fazem um sonoro "clac" quando fecham.
Alças principais
Assim como na barrigueira, as alças devem ser estruturadas (semi-rígidas) para melhor eficiência e durabilidade. As alças"acolchoadas" ou "fofinhas" acabam se deformando e tendo a superfície de contato diminuída. A regulagem das alças pode ser de cima para baixo, quando as fivelas são fixas nas extremidades das alças, ou debaixo para cima quando as fivelas são fixas na base da mochila.
Estabilizador lateral
Item reponsável pela estabilização do movimento lateral da mochila sobre as costas, deve ser regulado após a barrigueira e as alças terem sido apertadas, pois sua regulagem muda drasticamente a cada situação. Estabilizador superior Mantém a mochila próxima das costas e desloca o peso para a frente, o que aumenta a eficiência da barrigueira. Muitas mochilas permitem regular a altura desta inserção, o que deve ser feito depois da regulagem dorsal. O ideal é que ela se mantenha alguns centímetros acima dos ombros.
Estabilizador peitoral
É uma ótima solução para cargas pesadas, terrenos acidentados e caminhadas longas. Evita que as alças entrem em baixo dos braços e permite transferir o "puxão da mochila" (tendência da mochila cair para trás) para a área peitoral, aliviando os ombros. Mudando-se a regulagem do estabilizador peitoral durante o decorrer do dia, ou mesmo soltando-a algumas vezes, alivia-se bastante o desconforto na parte superior do tronco.
COMO DISTRIBUIR O PESO NA MOCHILA
O bom equilíbrio da mochila nas costas é fundamental para o conforto e desempenho do usuário. A distribuição dos equipamentos na mochila muda de acordo com a atividade a ser praticada:
Caminhadas leves ( terrenos suaves e descampados)
Coloque o material pesado o mais alto possível e perto das costas., de forma a manter o centro de gravidade da carga na altura dos ombros.
Caminhadas médias (terrenos acidentados e trilhas em mata ) e escaladas
Em situações que exigem passos altos, pulos, agachamentos e balanços laterais, o centro de gravidade deve ser baixado para a altura do meio das costas e próximo à mesma. Uma mochila grande, com centro de gravidade alto, pode derrubar seu dono durante um agachamento. A colocação do material mais pesado no lugar certo também facilita a operação de colocar e tirar a mochila sem ajuda.
Caminhadas difíceis (terreno muito acidentado e mata fechada) e grandes cargas
Em expedições pela mata atlântica ou aproximações de grandes montanhas, pode-se colocar o equipamento pesado no fundo da mochila, o que permite maior liberdade de movimentos e,consequentemente, menor desgaste físico durante a jornada.
Fonte: Revista Outdoor - outono de 1998 - ano 2 - número 6. Texto: Tomás Gridi Papp
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